
Melissa foi um calçado que por anos me foi duvidável, até pouco tempo atrás quando ouvia falar em Melissa, ligava o nome somente ao modelo Aranha inspirado nos pescadores da Riviera Francesa assinalando o nascimento da marca na década de 70.
Minha mãe disse que melissa nunca valeu muita coisa. "Antigamente todo mundo usava mas depois de algum tempo de uso e suor ficavam todas igualmente escorregadias, igualmente chulezentas e massacravam os pés de qualquer uma sem distinção de dedos, calcanhares ou joanetes." Melissa sempre foi uma tortura.
Dona Francisca
, minha mãe, também tinha os desconfortáveis All-Star quando eles estavam no auge lá nos anos 80 e também as sandálias de plástico. Ela me comprou alguns pares de aranha quando pequena porque eram fáceis de lavar, não estragavam na pré-escola e deixavam meu pé fresquinho, tínhamos um monte, "Eram baratas", disse ela.
Depois de algum tempo ninguém queria saber de All-Star ou Melissa, estes que antes custaram uma pequena fortuna do bolso do meu pai como presente para minha mãe agora eram quase de graça estacionados nas bancas de promoção das lojas lado a lado.
All-Star virou um produto saturado. O objeto de desejo com cores limitadas de r
epente ganhou uma estratosférica cartela de cores, cadarços, comprimentos - cano alto, cano médio, cano baixo - alguns tinham velcro facilitando para os pequenos, outros eram plataforma para as baixinhas, havia diferentes tecidos, estampas e até bolso para guardar suas moedinhas, tudo o que você imaginasse já existia.
O problema do All-Star foi a saturação, tanto de cor, público e apelo midiático. A campanha da Converse nos anos 80 foi tão agressiva que de tanto todos quererem, todos terem, colecionarem tantos pares no armário, tantos calos condizentes ao nada anatômico formato do tênis que, como previsto, as pessoas enjoaram. Então com uma nova arremessa, os calçados de Chuck Taylor pularam da prateleira de lançamento direto para a queima de estoque. Ninguém mais quis.
Mel
issa obteve o mesmo destino descrito acima; produto limitado, desejo, oferta superior à procura e estagnação dos produtos na loja, mas com uma diferença que ressalta minha mãe: Elas eram horríveis.
Em contrapartida à concorrente do setor norte-americano que saturou o público com tanta variedade (que em comparação à nossa Plastic Sandal, era de bom gosto), Melissa em sua sede de inovação criou modelos de arrepiar os cabelos até dos mais futuristas e descolados da década de oitenta e pagou um preço alto por isso no fim desta mesma década e começo da próxima: não vendeu. Na repaginação da nova campanha, ao contrário da Converse All-Star já estacionada nas prateleiras das lojas, Melissa sequer conseguiu chegar a elas, os lojistas não a queriam tampouco os consumidores, assim, dizem as adolescentes da década de 80, elas sumiram.
Eu, menina geração anos 2000 em um hiato de oito anos novamente ouço falar em Melissa já na coleção Tour, primavera/verão 2004. Lembro de ver estampadas nas páginas da revista capricho de uma amiga a campanha estrelada por corpos de modelos com recorte faciais de bonecas. Os sapatos eram bem bonitinhos em uma pegada teen, propagandas fresquinhas de cores suaves mas nem um par cheguei a pedir à minha mãe, já que eram de plástico alguma coisa dizia que eles iriam me matar.
Comprei com meu dinheiro suado de assalariada meu primeiro par este ano, Melissa Joy preta Alexandre Herchcovitch da coleção Et Circenses. Sou apaixonada por oxford, queria unir essa nova visão de calçado e experimentar novamente uma Melissa. No primeiro uso ela já me matou, me calejou, me judiou mas continuei forte, insisti e ela logo parou de maltratar meu pézinho.
Jean Paul Gaultier estilista francês, designer de roupas para Madonna nos anos 90, promotor da moda kilts para os homens e que hoje assina uma linha de roupas para a gloriosa Hérmes, em uma parceria nos anos 80 já havia assinado seu nome neste lindo calçadinho para a Melissinha, que de horroroso nós vemos, tem tudo.
Melissa apostou novamente em Jean Paulo e dele tem assinado uma sandália homônima, Melissa Jean Paul Gaultier, também pertencente à coleção de minha Melissa Joy, Et Circenses. A sandália de tiras e nove centímetros de altura foi apresentada como carro chefe des
ta coleção nos pés de Dita Von Teese na capa Plastic Dreams número três, já anteriormente estrelada por ninguém menos que Kate Moss usando Vivienne Westwood e Agyness Deyn usando Ashanti da própria Melissa.Toda coleção que se preze tem sua peça chave usada por uma celebridade, veiculada aos anúncios como tendência e vendida como certo com tudo, é o que você precisa ter. Unindo esses três quesitos, quem não se lembra de Gisele Bundchen desfilando suas Ipanemas ao som de “Slow Motion Bossa Nova”? , Sex Pistols usando Westwood nos anos 80, Daniela Cicarelli, embaixadora da calça levanta-bumbum Sawary, Wanessa (que agora não é mais Camargo) usando tendência fluor em um scarpin rosa choque nos banners da Planet Girls (que posteriormente virou tendência nos pés das celebs), e até Sabrina Satto lambuzando seus lábios de Snob da Mac que mesmo não sendo sua contratada, deu um pontapé para o batom também ser em nossa terra tupiniquim o mais absoluto dos últimos tempos?
Podemos não dar atenção às peças usadas como canapés nas coleções, até das usadas como acompanhamentos, mas as anunciadas, essas sim, elas tem que vender e isso nem Dita Von Teese ajudou.

Já em outubro de 2009 surgiram as primeiras fotos da Melissa Jean Paul Gaultier (ou simplesmente JPG) concorrendo como top da coleção com criações como Troupe de Alexandre Herchcovitch, mais três lançamentos de Westwood: uma fadada edição de Lady Dragon, a cafonésima Wing e outra cartela de cores de Three Straps Elevated. No fundo eu sabia, todas as consumidoras Melissa sabiam e os diretores criativos da marca sabiam também que essa coleção é de Jean Paul Gaultier, ou então era pra ser.
Uma sandália que custa trezentos reais, isso mesmo caro leitor, trezentos reais nos pés de Dita Von Teese no mínimo tem de despertar o desejo mais íntimo da consumidora Melissa e não digo somente da consumidora classe A-B, mas também da fanática proprietária de quase todos os lançamentos, edição limitada Alice no país das maravilhas, Pequeno Príncipe e centenas de outras raridades. Loja Melissa.com, Jelly e Melissa na Oscar Freire parcelam Jean Paul em até 5x sem juros em sua folha de cheque, cartão, crediário ou no diabo que lhe convir. O problema é que as pessoas não querem comprar.
A Elitização agressiva da sandália de plástico começou de cinco anos pra cá. Hoje não encontramos u
ma Melissa por menos de uma onça, nem mesmo a aranha que minha mãe diz não valer nem dez cruzados em sua época. Eu mesma paguei cem reais na minha Joy, não que o preço não valha a pena, o plástico dura, se encaixa bem no pé, não molha, tem um cheiro bom de fábrica mas quem nos tempos de hoje pode consentir os preços abusivos das tais sandálias?
Minha mãe disse que não entendo muito bem a lógica de mercado, ela diz que um preço alto normalmente é conseqüência do meio em que tal produto é produzido. A empresa tem de pagar o designer, tem de pagar as fôrmas, matéria-prima, os empregados, a fabricação, a embalagem, mas nada disso justifica trezentos reais sem ter swarovski por J. Maskrey*. Eu não tenho essa grana.
Leio centenas de blogs a respeito e nunca vi ninguém que tivesse tal modelo.
Vi gente fazer teste drive, gente experimentando na loja, namorando no lounge Fashion Week, mas lendo uma resenha, a única convincente a respeito, só vi motivos para que ninguém em sã consciência comprasse isto.
No post da Tamy (foto ao lado da mesma) no Look Melissa ela ressalta o salto de nove centímetros fino demais, a fivela frágil que claramente estoura com uma pressão a mais no pé, a tinta do salto que facilmente arranha...
São esses os trezentos reais empregados em um produto que deveria ter qualidade acima dos demais? Eu respondo: Não e respondo também que Grendene S/A diante do fenômeno Melissa nos últimos anos e já treinada em praticar preços abusivos como 170 reais em Lady Dragon, 200 em Three Straps Elevated 240 em Wing dessa vez foi mais longe, quis ver até onde as adoradoras Melissa iriam, até quanto elas pagariam pelo que tal empresa lhes vendesse como objeto de desejo desta coleção e qual a repercussão disso. O problema é que minha péssima lógica de mercado enxergaria uma falha nesta malévola teia.
Os motivos descritos por mim pelo possível fracasso da sandália (por não ter se saído tão bem ou pelo diabo que quiserem chamar) se deve ao preço comentado, a questionável fabricação também já mencionada, a cartela de cores pancovo que mesmo para quem não se abateu pelo dinheiro ou qualidade, quis adquirir mas mesmo assim não foi convencido e por último, a péssima distribuição.
Para acabar de vez com meu chateamento ei de comentar o último tiro no pé da Grendene S/A, sua desorganização. Apesar de todo confete, língua-de-sogra, chapeuzinhos de papel nas fotos de divulgação de Jean Paul Gaultier lá em 2009, esta somente chegou nas lojas em junho de 2010 com a campanha Et circense vigente desde janeiro deste ano, ou seja, 6 meses de atraso.
Isso é claro foi jogada de marketing, todos sabemos há mili anos que o melhor sempre fica para o final, mas o que me leva a crer que o atraso foi na verdade um erro de programação foi um primeiro email recebido com a chegada da tal Melissa nas lojas, pouco mais de um mês recebi o segundo avisando sobre a nova coleção que eu, ligadíssima já sabia que estava rolando, e outro par de dias depois, me chega o terceiro e-mail com uma promoção da JPG (já?) com milhagens duplas e chaveirinho de brinde.
Creio eu que com um modelo de tamanho prestígio eles não possam baixar o preço assim tão de repente e o departamento de marketing esteja cuidando de outra maneira para atrair os olhares consumistas. Tudo bem, mas como podem perceber não sou eu que estou inventando, a empresa está realmente lançando um olhar desesperado para que este estoque se esgote rapidamente antes que como nos anos oitenta façam companhia ao All-Star que caminhava das prateleiras lustrosas do desejo direto para a pilha amarga da queima de estoque.
Melissa Jean Paul Gaultier, e aí, vai pagar quanto?
*Designer britânico que trabalha com cristais swarovski


11 comentários:
Achei muito bem escrito seu post, até mesmo para quem DETESTA moda com todas
as forças, como eu. Muitos levantamentos interessantes e bem pesquisados sobre o comportamento
de outras gerações em relação às marcas que a gente cresceu enxergando já de outra forma na nossa.
Lembro sempre das melissas vendendo em lojas de shopping junto com acessórios da Kippling e de já serem artigos de luxo desde
que eu me conheço por gente. Chulezentas, desconfortáveis e luxuosas.
Em todo caso, a moda não costuma se importar com conforto, saúde e tem uma definição de bom gosto muito questionável.
O all star eu e grande parte da minha geração sempre defendemos pela simplicidade, pelo estilo básico-que-vai-com-tudo,
mas fomos traídos por uma alta de preço e tentativa de releitura da marca que levou ao absurdo de um tênis de pano e borracha custar R$80,00...
Morra Chuck taylor (de novo). Se você gosta dessa área, está megaencaminhada, por dentro, escrevendo fodidamente bem, parabéns pelo artigo.
E refaria sua pergunta: Vai ME pagar quanto para eu usar essa sandália de plástico que faz o pé suar, se transformar em colônia de fungos e bactérias,
é desconfortável e, ainda por cima, brilha?
A escrita sensacional de sempre, mas agora com uma boa dose de pesquisa. Sempre soube que você entendia tudo de moda, principalmente daquela vez em que você saiu comigo usando havaianas e uma pochete, sempre de olho nas tendências.
E não se preocupe com o tamanho do texto, como todos os outros, esse prende a atenção do início ao fim.
PS: Pode tentar a carreira na administração de empresas.
Não acho que melissa seja tão negativa desta forma.
Tenho várias e posso garantir que elas são super confortáveis e além de tudo lindas.
Sim a melissa apela as vezes nos modelos, como esta nova coleção amazonista pouquissimos modelos são os que se salvam.
Mas acho que varia de pessoa para pessoa, obviamente meninas que tem chulé com o sapato de plático ele vai ficar evindenciado.
Porém, minhas melissas nao tem mal cheiro e não deixa meu pé suado.
E além de tudo bastaria usar uma meia fina que acabaria com o problema.
eu tenho e adorooo!!!
Não entendo nada de moda tanto que nem sabia que Melissa era tão antiga assim. A primeira lembrança que tenho é por volta de 1996 quando minha irmã comprou um par e ganhou de brinde um imã de geladeira na forma da sandália.
Vejo que o que acontece com as sandálias Melissa se repete de forma semelhante com os automóveis no Brasil.
O brasileiro é o único povo que ao comprar um veículo só se preocupa com detalhes estéticos e não leva em consideração aspectos como segurança, desempenho, manutenção, preço do seguro entre outros e assim como as Melissas são feitos dos mais horríveis polímeros que se tem notícia na face da Terra. Carro é sinal de status, assim como a sandália. Compra-se para os outros verem, falarem e não para você usar e se sentir bem. O preço é um absurdo quando se comparado ao custo de fabricação pois o que se compra não é um carro, uma sandália é o design. Hoje no brasil o carro mais pancovo (leia-se Uno - do modelo antigo ainda) não sai por menos de R$ 25000,00 lulas e sem nenhum item que em outros países com rígidas legislações seriam de série como air bag. O que temos hoje tanto nas sandálias como nos automóveis e em outros setores é a supervalorização do bem e a perda de aspectos que deveriam ser intrinsecos ao produto. A sandália deveria calçar bem, durar, não machucar o pé nem deixá-lo chulezento. O carro deveria ser feito levá-lo ao seu destino com segurança e conforto. Mas não posso de deixar claro que nessa comparação temos um ponto bem fora da reta. Os carros por mais horríveis e caros que sejam pelo que oferecem não ficam encalhados como as Melissas.
Muito bom o texto, embora não goste do assunto 'moda' me fez refletir bastante.
Beijo
Adorei esse texto e como "melisseira" não aliendada, concordo plenamente com o fracasso da JPG, incrível como todo marketing envolvido não conseguiu fazer essa melissa o grande carro chefe de vendas dessa coleção. Modelos de Alexandre Herchcovitch e Viviene Westwood fizeram mais sucesso e possuem melhor acabamento do que a famosa JPG.
Senso crítico diz que apesar da beleza que seduz nem tudo é só o belo. Para quem leu o teste drive da Tamy citado aqui sabe que mesmo sendo linda e glamourosa, não vale a pena o investimento de R$300.
Acho que nem quem compra pra vender depois arriscou...
AMO moda, mas não sou idiota, e não acho que tem gosta de moda e de melissas e/ou all star merecem certos rótulos!
PARABÉNS pelo seu texto, na medida certa.
Tenho a JPG, e li o texto.
Não vou ser hipócrita de falar que a melissa é barata, de forma nenhuma, porém, como a Paulette disse, a assinatura do JPG (e de nenhum outro parceiro) não custa barato...
A questão da qualidade e do conforto não é surpresa pra ninguém, pois toda nós sabemos que grande parte das melissas não são confortáveis, e que a qualidade deixa muito a desejar, porém, como é questionado no texto, a própria autora diz nunca ter visto alguém que tenha comprado "tal modelo"...
Eu comprei, e conheço meninas que compraram, e todas gostaram.
A melissa é confortável sim, é estável para o enorme salto que ela tem, e há sim o problema das tiras, mas não chega a ser nada que "arrebente" com o uso...e o fecho não é tão frágil quanto se pensa...e nunca vi a tinta do salto soltar...
Então meninas, fica O MEU PONTO DE VISTA, e respeito a opinião de todas aquelas que discordarem.
A Melissa e o All Star são peças iconográficas....
Por exemplo, se vc é do rock, vc quase obrigatóriamente tem um All Star.
E foi por isso que a Melissa chama muito a atenção de qualquer garota, desde as mocinhas do funk e suas Malikas, ashias... desde as "riot"girls com suas Westwood nos pés
A qualidade da Melissa evoluiu sim, hj o plástico é Melflex, antes não era, o plástico era duro e machucava...
Me lembro que nos anos 90 a Melissinha de criança era um sucesso,tinha até o clube da melissinha.
E o All star tbm.
o preço de ambos é exorbitante,mas qualquer outro BOM sapato também é ( vide Arezzo) eu digo bom sapato pq a Melissa, é um bom sapato sim, pois oferece status...
Sim...status meramente por um sapato de plástico hj, isso é um iten básico dessa sociedade capitalista, vc é oq vc tem. Infelismente.
A Melissa, custando 50,90,100,120,130,150,200,240,300
sempre vai te fazer diferente.
Acredito que, realmente, quem pode paga, quem nao pode não usa.
Usa Disantinni, barato, bom durável...
Melissa é coisa de gente que curte moda, que gosta de ser in em todas as estaçoes.
BJOS ME LIGA.
Sou melisseira compulsiva, e concordo com tudo dito sobre a JPG, a Grendene estava doida quando colocou esse preço em uma melissa sem cristais, como a autora falou, e acho o mesmo a respeito da wings. quanto a qualidade, não posso atestar nada, não tenho esse modelo, e o desconforto me parece óbvio, o salto dela tem a altua e o diâmetro de uma caneta, céus! Porém, eu quero atestar uma coisa a favor das melissas como um todo: não é por serem de plástico que são desconfortáveis, muitos modelos são bem confortáveis, e, pelo menos em mim, não dão chulé... esse preconceito é remanecente da época que a qualidade das melissas era péssima, e esta já melhorou muito.
Olá pessoal. Estou a procura dese modelo JPG na cro vidro número 36. Quem estiver para vender me avise por favor...quero casar com esta melissa.
Obrigada
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